Artistas cristãos em um mundo secular
por Bob KauflinCom o passar dos anos tenho encontrado mais de meia dúzia de irmãos tentando lidar com a ideia de estarem envolvidos com “música secular”, sendo cristãos. E este é um longo debate. Mas, enquanto convivo com gente que tenta entender a vontade de Deus para esse grande dilema, pude perceber alguns princípios que podem ser aplicados além da área específica da música. Os músicos não são as únicas pessoas com esse tipo de problema.
O que quero dizer é:
- E um cineasta cristão? Ele ou ela só poderão participar de festivais de filmes cristãos??
- E um cara com dom para poesia beat¹? Ele terá de se afastar de saraus em ambientes seculares?
- E um escritor trabalhando em um romance? Quanto “material cristão” será necessário em seu livro?
Então, o que devemos pensar sobre cristãos estarem envolvidos em movimentos “seculares”? É sempre errado? É algo que devemos incentivar?
Quero listar alguns pensamentos que tenho compartilhado ao longo dos anos com pessoas que estavam tentando achar a vontade de Deus para suas vidas, na área da música; mas não acho que é difícil ver conexões com outras áreas, como arte, cinema, etc.
Então, vamos explorar esses princípios juntos.
A questão mais importante
O ponto mais importante para questionar (e, às vezes, o mais difícil de responder) é: “Quais são os meus motivos para querer me envolver com a música secular?” A Palavra de Deus é clara: “Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1 Co 10.31). Isso inclui a nossa arte.
Embora eu nunca presuma que os motivos de alguém serão completamente puros, existe uma diferença significativa entre quem vive para tocar nos palcos e quem vive para servir aos outros com seus dons.
Se houver qualquer dúvida sobre porque quero tocar fora da igreja, é uma boa ideia pedir a pessoas a quem respeito uma avaliação honesta dos meus motivos.
Redefinindo “sucesso”
O sucesso de um cristão no mercado não é, de nenhuma maneira, sinal de que o Reino está avançando ou que o Evangelho está sendo proclamado. O ímpio pode ser rico e famoso também (Sl 73.12).
Um hit não é necessariamente um sinal da bênção de Deus. Pode ser resultado de uma boa divulgação ou de uma grande musicalidade. Em muitas músicas que misturam o secular e o cristão, a letra falha em comunicar qualquer coisa que a distinga como cristã. Além disso, quando uma canção cristã se torna popular, as pessoas podem presumir que não há diferença entre músicos seculares e cristãos – é tudo sobre música e dinheiro.
Redefinindo “secular”
Uma música secular não é necessariamente anticristã ou ateia.
Há inúmeros exemplos de canções populares que apresentam valores morais, perspectivas profundas e comentários significativos sobre a vida e que não façam referência direta às Escrituras. O sucesso de músicas como “I Can Only Imagine”, “Butterfly Kisses”, e “Meant to Live” é clara evidência disso. (E, se você não gosta dessas músicas… apenas continue comigo nesse argumento…). Podemos usar nossa música para entreter, sem glamourizar ou promover os ídolos do materialismo, orgulho e egocentrismo.
Julgando Caridosamente
À distância, não podemos estar corretos quanto às motivações de um artista.
Enquanto podemos tirar conclusões sobre a vestimenta de alguém, sua linguagem, atitudes e ações, é difícil dizer a diferença entre um rebelde não salvo e um crente desinformado. Poucos de nós se sairiam bem se os detalhes de nossas vidas fossem publicados para milhões de pessoas lerem e criticarem. Isso não significa que os músicos que se declaram cristãos estão acima da avaliação ou julgamento público. Significa apenas que, na maioria dos casos, devemos focar mais nas diferenças do que em expressar julgamentos finais. No mínimo, nossas orações por um artista devem ser iguais à nossa crítica pública.
Sem desculpas para renunciar
Estar envolvido na música secular não é justificativa para abandonar a igreja ou minimizar nossa fé.
Um músico cristão pode não cantar abertamente sobre a salvação ou a cruz, ou não tocar música composta por cristãos. Mas nunca podemos afirmar que o nosso cristianismo fica em segundo plano e a nossa musicalidade em primeiro. Não existem músicos que por acaso são cristãos. Nossa identidade como cristãos deve direcionar tudo o que fazemos. Assim como Paulo, devemos estar aptos a dizer: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Filipenses 1.21)
Em um pequeno e desafiador livroentitulado Imagine: A Vision for Christians in the Arts, Steve Turner escreve: “Às vezes eu escuto cristãos justificarem a menção de seus pontos fracos em sua arte porque ‘Eu sou um pecador, como qualquer outro’. Isso não é verdade. O cristão não é um pecador como qualquer outro porque o cristão é um pecador perdoado, e isso altera sua relação com o pecado”. Basicamente, a cruz muda tudo. O Evangelho redefine as nossas prioridades, redireciona as nossas paixões, e reformula nossa visão de mundo. Agora vivemos toda a nossa vida “pelas misericórdias de Deus” (Rm 12.1).
A Influência do Evangelho
O mundo precisa ver, em todas as áreas, pessoas que tenham sido genuinamente transformadas pelo Evangelho.
Músicos cristãos inseridos no mercado secular têm a oportunidade de influenciar não-cristãos não apenas com suas músicas, mas com suas vidas. Deus pode ter dado a eles a oportunidade de compartilhar o Evangelho com pessoas que não seriam alcançadas de nenhuma outra maneira. Kerry Livgren e Dave Hope são dois artistas que têm feito a diferença nesse sentido. E existem muitos outros. Alguns cristãos servirão à igreja na igreja. Outros servirão à igreja fora dela. Ambos mostram através de suas vidas que Jesus é o único Salvador e o Soberano do Mundo.
De Genêsis ao Apocalipse em uma música de 50 minutos
Nem todas as músicas escritas e cantadas por critãos precisam expor todo o Evangelho.
Russ Bremeier, em uma de suas colunas Music Connection², escreveu:
Algumas músicas falam explicitamente do Evangelho, e outras apenas plantam uma semente que pode levar ao Evangelho. Nossa arte é um reflexo da diversidade que somos como corpo de Cristo. Se ela é usada na igreja, no rádio, num programa de televisão, ou mesmo em um anúncio de 30 segundos, podemos ficar descansados sabendo que Deus pode usar a música que fazemos em inúmeras maneiras de servir a seus propósitos.
Pode haver músicas de todos os tipos, escritas sob a perspectiva daqueles que vivem à luz das alegrias e realidades do céu.
Eis o que importa: Conheça seu coração e procure fazer música para a glória de Jesus Cristo, não importa onde você a execute. Nossa arte não é sobre nós. Trata-se, em primeiro lugar, de chamar a atenção para o Deus que nos deu dons como a música. No final das contas, nenhum outro tipo de arte irá permanecer.
Bob Kauflin é Diretor de Worship Development da Sovereign Grace Ministries. Blog dele: worshipmatters.com
¹ http://pt.wikipedia.org/wiki/Gera%C3%A7%C3%A3o_Beat
² Leia alguns dos textos aqui: http://www.christianitytoday.com/ct/music
Traduzido gentilmente por Josiane Lima! | iPródigo | Original aqui | Obrigado, Josi! :-)
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0gg
29/04/2010, 00h45É impressionante vermos como ainda existem crentes que acham que apenas aquilo que está dentro da igreja é para Deus, sendo que algumas vezes vemos mais heresias que santidade…
Neto Macedo
29/04/2010, 07h38De acordo com o autor: “A Palavra de Deus é clara: ‘Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus’ (1 Co 10.31). Isso inclui a nossa arte”.
“Quando alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedecer à voz de seu pai e à voz de sua mãe e, castigando-o eles, lhes não der ouvidos,então seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade, e à porta do seu lugar, e dirão aos anciãos da cidade: este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá ouvidos à nossa voz; é um comilão e um beberrão.
então todos os homens da sua cidade o apedrejarão, até que morra; e tirarás o mal do meio de ti, e todo o Israel ouvirá e temerá”. (Deuteronômio 21,18-21)
Ou a palavra de Deus é clara, e ele é imoral, ou Deus é moral, e essa não é a palabra dele.
(E é claro, este comentário não será aprovado).
iPródigo
29/04/2010, 08h28Neto,
Obrigado pelo comentário. Acreditamos que podemos abençoar a vida de nossos leitores não só postando textos e vídeos, mas tirando dúvidas e fazendo esclarecimentos por meio dos comentários.
Como em qualquer verso ou trecho da Bíblia, devemos ter muito cuidado para não tirarmos lições fora do contexto. Talvez esse trecho de Deuteronômio realmente soe estranho à primeira vista, mas é possível ler no mesmo livro, mais a frente, Moisés falando:
“Ele [Deus] é a Rocha, as suas obras são perfeitas, e todos os seus caminhos são justos. É Deus fiel, que não comete erros; justo e reto ele é” (Dt 32.4).
As ações e ordens de Deus no Antigo Testamento devem ser enxergadas dentro do contexto do Antigo Testamento. Algo que parece imoral para nós não significa que é imoral para Deus. Ele é o parâmetro final de moralidade, não a humanidade.
Para um tratamento mais claro da questão do Antigo Testamento, sugerimos a leitura do texto “Como Deus pôde ordenar um genocídio?”, de Justin Taylor:
http://iprodigo.com/traducoes/como-deus-pode-ordenar-um-genocidio.html
Atenciosamente,
Equipe iPródigo
Diego
29/04/2010, 17h46Nossa que texto excelente.. bem posicionado e bem claro!
Valeu Josa pela tradução.. Parabéns pelo Blog cada vez melhor!
vou deixar o link do meu também: http://subirquadrado.blogpot.com/
Graça e paz mano
abraço!
João Calvino
03/05/2010, 02h45Neto Macedo,
Não sei se você é cristão. Vou pressupor que seja. E afirmo isso sem tom pejorativo. A grande questão toda, para nós cristãos é a centralidadade da Cruz de Cristo.
Bem, enquanto A Cruz estiver em nossas Bíblias, não vejo outro escândalo maior do que esse. Falar de um Deus imoral bem poderia ser aplicado exatamente sobre a pedra angular da fé cristã: que Deus, lançou Sua ira contra nós sobre Cristo, Seu único e predileto Filho, Jesus. Ora, existe algo mais escandaloso do que Deus sacrificar com morte tão cruel Seu próprio filho por um pecador?
Além disso, sem o Antigo Testamento não temos o Novo. Como dar crédito às palavras de Jesus que faz citação chamando de Palavra de Deus “A lei, os profetas e os escritos”, ou seja, todo o Antigo Testamento?
Se a conclusão for essa, então, nem o Jesus que temos na Bíblia é o que muitos pensam. Sim, porque não lembrar dos juízos que Jesus fala que serão piores ao mundo do que ocorreram a Sodoma e Gomorra? São palavras de Jesus. E os terríveis quadros apresentados por Jesus no Apocalipse? Houve até um pastor que não gostava de ler no Apocalipse a expressão “A ira do Cordeiro”. Mas está lá.
O problema é relativizar moral, ciência e vontade de Deus usando a nossa razão apenas. A cruz é o maior testemunho escandaloso do nosso Deus. Que Deus de amor iria crucificar Seu próprio Filho? Que Deus iria pegar nossos pecados e culpa e lançar sobre um inocente, o Cristo?
Enquanto este escândalo da cruz estiver em nossas Bíblias, não existe nada maior que eu possa me admirar. Fiquemos prostrados diante dessa santa loucura divina e vergonha para muitos.
A sua frase “Ou a palavra de Deus é clara, e ele é imoral, ou Deus é moral, e essa não é a palabra dele” deve ser posta diante da cruz também. Se a cruz for imoral para você, então, pelo menos é coerente dentro do seu sistema de pensamento neto-macedense.
E assim, poderia afirmar que Deus é claro e jamais sacrificaria seu filho. Ou que Deus é imoral por sacrificá-lo ou que a cruz não é coisa que tem a ver com a palavra de Deus.
Não é o que parece que a Palavra de Deus aponta:
“Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do SENHOR prosperará nas suas mãos.” Is 53.10
“Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia.E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá. 23 Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.” Mt 16.21-23
“Adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que FOR MORTO DESDE ANTES DA FUNDAÇÃO DO MUNDO.” aP 13.8
É fato que o cristianismo do Novo Testamento tão logo entendeu a cruz de Cristo como sendo obra de Deus em favor de muitos:
“Sendo este (Jesus Cristo) entregue pelo DETERMINADO DESÍGNIO e presciência DE DEUS, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;” Atos 2.23
“Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, 28 PARA FAZEREM TUDO O QUE TUA MÃO E TEU PROPÓSITO PREDETERMINARAM” Atos 4.27-28
Por isso é que existem afirmações como essas, e defesas como as seguintes:
“Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria.Nada me propus saber a não ser Cristo, e este crucificado, poder de Deus”1 Cor 2.1,2
“Nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos” I Cor 1.23
Relevância do Cristianismo para a Cultura « Maluco por Jesus
16/07/2010, 12h45[...] Bob Kauflin – Artistas cristãos em um mundo secular [...]
Daniel Coelho
08/12/2010, 17h43Uma citação de Marc Bloch (historiador francês) cabe muito bem aqui. Bloch sabiamente afirma que “tudo que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica, que toca pode e deve informar sobre ele”, afinal, os lábios ‘cantam’ sobre o que preenche o o coração. Conheço vários artistas que testemunham sua fé e fazem um excelente trabalho fora da igreja com sua música. Um deles em especial não larga de jeito nenhum a igreja, mesmo transitando entre os maiores nomes do rock progressivo no mundo. Me refiro à Neal Morse. Esse cara é um instrumentista de mão cheia, possui um carísma fantástico e está a frente de uns quatro projetos musicais (O solo, o Transatlantic, o Yellow Matter Custard e o Cover To Cover). Não tenho palavras para elogiar a atuação desse cara. Para mim é um exemplo de como se apropriar da música para se divertir, para testemunhar sua fé e para sair reunindo os grandes nomes em power bands que se envolvem com a execução de canções compostas por Neal e inspiradíssimas. Ele é confesso e nada discreto em sua fé e nomes como Mike Portnoy, Roine Stolt, Pete Trewava, Paul Gilbert, entre outros. Os trabalhos solos dele são fantásticos! Algumas obras conceituais são voltadas exclusivamente para o testemunho e para o louvor.
Neal Morse é um exemplo para mim de artista que se envolve. De um artista que não segrega para testemunhar sua fé e com isso influecia centenas! Sugiro que procurem sobre Neal Morse.
P.S.: Também conheço outras bandas que possuem a mesma conduta. Talvez não tenham tanta penetração no meio secular assim, mas tocam em rádios seculares nos EUA e no Brasil e têm mantido uma grande influência por seu alto padrão nas composições (letra e música). Recomendo: Jars of Clay, POD, Tourniquet, etc.
Grande abraço!!!!