Como seria a Bíblia se ela não falasse o tempo todo sobre Deus?
por Josaías Jr.Um amigo divulgou uma matéria sobre um livro chamado The Good Book: A Secular Bible [O Bom Livro: uma Bíblia Secular], do filósofo A.C. Grayling. Segundo o autor, sua obra é a proposta de uma ética que não é baseada em algum tipo de deus ou divindade. Usando livros com títulos semelhantes às suas contrapartes e às expressões bíblicas (Gênese, Parábolas, Atos, Sabedoria, Epístolas, etc.), essa obra propõe-se a compilar conselhos, sabedoria, inspiração e outras máximas da sabedoria humana.
Existe até uma versão dos Dez Mandamentos:
- Ame muito
- Busque o que há de bom em todas as coisas
- Não prejudique os outros
- Pense por si mesmo
- Seja responsável
- Respeite a natureza
- Faça sempre o seu melhor
- Informe-se
- Seja gentil
- Seja corajoso
Enfim, trata-se realmente de uma “Bíblia”, mas do tipo que toma como ponto de partida não Deus, mas o homem. Ela tem uns conselhos que poderiam ser considerados bons, mas vejo que é possível aprender muito mais a partir dela – daí esse post.
Polindo a pedra de escândalo
Eu poderia gastar algumas linhas falando sobre a arrogância humana em tentar erguer-se puxando os cadarços do próprio tênis, mas o que me chamou a atenção foi um comentário desse mesmo amigo. Ele lembrou o movimento liberal, que procurava adaptar o cristianismo ao homem moderno. Segundo o liberalismo teológico, as doutrinas e dogmas apresentados pela igreja nos últimos séculos não eram aceitáveis à mentalidade pós-iluminista. A ideia de milagres era resquício de um tempo obscurantista, em que beatos explicavam o desconhecido como a ação de Deus.
Os teólogos liberais entendiam que a Bíblia, diante da nova mentalidade que surge, não poderia ser considerada uma testemunha fiel de fatos históricos. Isto é, relatos como o êxodo, a história de Davi e a vida de Cristo poderiam ser apenas criações de um povo religioso. Ou seja, apenas mitologia judaico-cristã.
Por outro lado, esses homens entendiam que, apesar disso, a mensagem da Bíblia era boa e espiritual. Para eles, abandonar a confiança nos relatos históricos da Palavra de Deus não significava abandonar a moral, a ética e os valores que o cristianismo propunha. Cristo poderia não ter ressuscitado literalmente, logo, apesar de morto, está vivo em nossos corações, eles diziam. Michael Horton expressa bem o pensamento liberal:
O liberalismo representa a fé na humanidade, ao passo que o cristianismo representa a fé em Deus. O primeiro é não-sobrenatural, o último é absolutamente sobrenatural. Um é a religião da moralidade pessoal e social, o outro, contudo é a religião do socorro divino. Enquanto um tropeça sobre a “rocha de escândalo”, o outro defende a singularidade de Jesus Cristo. Um é inimigo da doutrina, ao passo que o outro se gloria nas verdades imutáveis que repousam no próprio caráter e autoridade de Deus.
Note um detalhe importante: o liberalismo é “a religião da moralidade pessoal”. Fruto de seu tempo, o liberalismo teológico cria que a humanidade havia alcançado seu auge após as revoluções provocadas pelo pensamento iluminista, modernista, naturalista, industrial… e por aí vai.
Assim, a conclusão dos liberais era a seguinte: percebemos que o homem não é mau como os cristãos tradicionais afirmaram. Ele é bom, está um pouco desorientado, é verdade, mas é bom. E está evoluindo! Ele não precisa do sacrifício sangrento de um Messias para salvá-lo (uma ideia repugnante e bárbara!), pois Deus (não necessariamente aquele dogmatizado pelos cristãos antigos) não deseja sequer condená-lo. A humanidade precisa de orientação. E para isso a Bíblia e os ensinamentos de Jesus servem – para orientar-nos a uma vida melhor.
Uma coisa importante: os ensinos de Jesus e os mandamentos bíblicos são bons e verdadeiros, mas, para os liberais, esses ensinamentos tinham base não na autoridade divina, mas no que a humanidade produziu de melhor. E Jesus, claro, é o maior exemplo moral que existiu. Como não aceitar Jesus?
E eu com isso?
Talvez você leia toda essa reconstrução histórica e pergunte: o que tenho a ver com isso? A verdade é que temos muito a ver com o liberalismo teológico. Permita-me a heresia de citar uma sorte de hoje do Orkut: “A filosofia de um século é o bom senso do próximo”. Toda essa longa história de um antigo movimento que surgiu há mais de 200 anos pode parecer distante e irrelevante. Mas a verdade é que as ideias bombásticas do século XIX podem facilmente estar escondidas no humilde culto de domingo – mesmo entre irmãos que combaterão qualquer menção ao liberalismo.
A matéria citada no início desse texto começa com a seguinte pergunta: “Como seria a Bíblia se ela não falasse o tempo todo sobre Deus?”. E eu pergunto para você membro de igreja e, em especial, para líderes e mestres: “Como seria a igreja se ela não falasse o tempo todo sobre Deus?”.
O fato é que eu não preciso de uma Bíblia Secular, de uma teologia liberal ou de uma filosofia humanista para não falar o tempo todo sobre Deus. Para uma “Bíblia” ser secular, ela não precisa ser escrita por um filósofo ou ter seus pedaços recortados, como diz-se que Abraham Lincoln fazia com seus exemplares.
Para ter uma “Bíblia Humanista” é necessário apenas ignorar um ou outro ponto, esquecer-se de uma ou outra doutrina, diminuir o que a Palavra exalta e exaltar o que ela diminui. E quando não falo, não considero, não tomo como pressuposto e referente “todo o conselho de Deus” (At 20.27), acontece o seguinte: outro conselho toma o lugar dele. Consequentemente, riquezas, saúde, bem-estar, família, crescimento, música ou moralidade são aspectos preciosos da existência humana que tomam o espaço do Criador. Aos poucos, estamos pregando a sabedoria e a glória humanas – não a sabedoria e a glória divinas.
Aos poucos, estamos pregando a sabedoria e a glória humanas – não a sabedoria e a glória divinas.
Abandonando o bom senso
Justamente por ser o “bom senso” do século atual, o liberalismo light de nossa época é tão difícil de ser detectado. Existem indícios que podem auxiliar o crente a encontrar essas tendências em livros, líderes e mensagens. Tomando a ordem de capítulos do clássico Cristianismo e Liberalismo, de J. Gresham Machen, aqui vão alguns:
- Doutrina: Esqueça! Abandone o radicalismo do dogma, a frieza da teologia e as dificuldades do estudo bíblico. Precisamos de ações práticas, de experiências calorosas e dos ensinos morais do mestre Jesus Cristo. Consequência: qualquer pessoa “espiritual, mas não religiosa” se sentirá confortável por não ouvir falar de Trindade, expiação, pecado e milênio.
- Deus: O Criador é o Pai de todos, aquele que nos ama, que quer o bem da humanidade. Ele não é alguém que podemos conhecer objetivamente, mas apenas sensorialmente e por meio de experiências. Como Pai celestial e amoroso de toda a família humana, não é recomendável falar que Ele está irado com alguém ou que estamos separados dele. Consequência: Importa que ele diminua e eu cresça.
- Homem: Não existe Queda do homem. Somos bons, como mostra o progresso da humanidade, a ética dos povos e minha própria conduta. A mente moderna sabe que fazemos coisas ruins, claro, mas em geral temos um bom padrão moral (fora um ou outro malvado do noticiário). Sendo eu tão valioso, minha autoestima não pode ser ferida quando você fala dessa ideia antiquada e grosseira de pecado. Consequência: Não use o palavrão que começa com “P” no sermão.
- A Bíblia: O liberalismo clássico desconsiderava vários relatos da Escritura. Para eles, aquilo era mera invenção humana. Havia coisas boas na Bíblia, mas somente aquelas que não eram absurdas para nossa era esclarecida. Jamais faríamos isso, certo? Errado. Vemos a Escritura ser solapada pelas últimas descobertas de ciências como Administração, Sociologia e Psicologia – tanto em púlpitos, quanto em aconselhamento, quanto em faculdades e na EBD. Nada contra a ciência em si (estaria contra mim mesmo), mas contra o uso dela como revelação autoritária. Consequência: alguma coisa estamos pregando, mas não é o Evangelho. É a Bíblia humanista, compilando o melhor que a humanidade pode oferecer.
- Cristo: Como dissemos, Jesus é o grande mestre moral, aquele que veio nos dar o exemplo de autossacrifício pelo bem dos outros – apenas isso. Não há espaço para morte substitutiva, nem para natureza divina. Ressurreição nem pensar! Quem acreditaria nisso? Consequência: Adeus para a ideia de Salvador.
- Salvação: Você não está caído nem precisa nascer de novo. Você precisa de uma força para alcançar seu potencial. Para isso, alguns princípios morais, retirados dos ensinamentos de Jesus e dos heróis bíblicos serão necessários (lembra dos “10 mandamentos” lá em cima?). Não se preocupe com o fracasso: Deus ajuda quem se ajuda. Consequência: Legalismo e o fim da graça.
- Igreja: Somos uma comunidade de pessoas felizes e satisfeitas que alcançaram certo padrão moral (graças a Deus!) e agora se reúnem a cada semana com o objetivo de chamar novos membros para nossa agremiação. Consequência: aquela sensação de estar em um clube social.
Toda essa reflexão lembra algumas ilustrações fortes, uma de John Piper e outra do Michael Horton. Na primeira, o pastor batista imagina um “céu” em que temos todas as coisas moralmente boas que sempre amamos – menos Cristo. Na segunda, o teólogo presbiteriano pergunta o que é um lugar onde todos vivem pacificamente os altíssimos padrões bíblicos (até frequentam o culto nos domingos) – mas não há qualquer menção a Cristo. Que lugar estranho e inesperado é esse? A princípio, parecem locais agradáveis e cheios de pessoas simpáticas e inteligentes. Pena que, algumas décadas antes, Machen já tinha respondido essa charada: “pode-se muito bem questionar se ao ganhar o mundo todo não perdemos a nossa própria alma”. É o único lugar para onde a Bíblia Secular pode nos levar.
Escrito por Josaías Jr | iPródigo
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Vini
14/04/2011, 07h22E o pelagianismo continua sendo a religião natural do homem.
Realmente, Cristo crucificado é somente sabedoria e poder para aqueles que foram chamados, porque nenhum ser humano por si só creria nisto.
Texto oportuno.
George Lucas
14/04/2011, 16h30INteressante né? Pelagio nada mais fez do que expor o liberalismo natural da mente humana corrompida.
Bom texto. Acontece que por causa do pecado e da estupidez dos homens, a sabedoria de Deus é loucura pra eles. Não é motivo pra acreditar no que eles crêem. Mas nós temos Deus como nossa testemunha. Totalmente confiável é o Cristianismo.
Louvado seja Deus pelo novo nascimento.
Yago Martins
14/04/2011, 16h37Como alguém disse, as pessoas já estão usando essa “Bíblia” faz tempo. Espero que Deus abra os nossos olhos para que não transformentos a Santa Palavra de Deus em uma mera bíblia humanista.
Caio
14/04/2011, 17h59Me fez lembrar uma recente frase do Sinclair Ferguson: “Often false teaching begins not by something being denied but by the really central things not being said.”
Texto que vem em muito boa hora.
Luis Henrique
15/04/2011, 06h36Bela postagem e muito relevante mesmo para os nossos dias!
Bryan Monteiro
15/04/2011, 15h41Nos cultos desta semana de domingo e principalmente quarta-feira eu estou sendo muito atacado, pois me perguntaram porque eu afirmo tanto, a supor emacia de Deus sobre qualquer ato humano, e excluo a possibilidade do homem ter o direito de juiz (livre-arbítrio). Eles disseram que eu estou falando muitas coisas distintas do líder da igreja e que eu deveria conversar com ele. E eu afirmo que não que para mim estou seguindo uma doutrina bíblica, se ele acha que também esta seguindo blz, em nenhum momento eu vim com esta questão a eles, mas que foram eles que vieram até a mim e estão me julgando por ter uma cosmovisão diferente.
Tudo começou com um encontro de jovens que emeu irmão foi no qual ele perguntou para o pastor uma lógica que ele tinha. Que onisciência de Deus e a escolha do homem de ser salvo era conflitantes, o pastor pipocou e falou que não existe onisciência de Deus. Ai eles me perguntaram e eu respondi, e vcs teem noção do resultado.
Cara o humanismo esta muito presente nas igrejas. As analises de pecado estão muito no plano horizontal. O Deus deles confabulam demais com eles. Mas eu me mantenho discreto, vamos ver até onde isso vai chegar.
Diego Lopes
19/04/2011, 10h28Alguém aí em cima nos comments falou tudo quando relembrou: “A SABEDORIA de DEUS é loucura para os homens”.
Fiquei meio cismado tbm com essa história do irmãozinho Brian, nos comments. O jeito é muita oração, mano… Pedir direção de DEUS.
Que o Espirito Santo, que é acima dos relativismos deste mundo, nos guie pelo Caminho, Verdade e Vida, à saber, pela Videira Verdadeira, JESUS CRISTO, à sã doutrina.
Não nos deixa esfriar a fé SENHOR! Não nos deixa cair em meio as vaidades e enganos deste mundo. Maranata! Ora, vem SENHOR JESUS!
Aleluia SENHOR… Ainda há seus “700″ que não dobraram seus joelhos à Baal! Sabemos que a Salvação é por meio da Graça imerecida que veio através do Teu Cristo JESUS, ABBA!
Louvado seja o DEUS de Abrahão, de Isaque, de Jacó… de JESUS CRISTO.. de Pedro, Paulo,… e também desses que ainda restam que buscam Tua facee, óh DEUS!
Paz, Graça e Unção de DEUS sobre todos nós. Amém.