Deus deleita-se com a arte não-cristã?
por Tony ReinkeEssa é uma grande questão, mas vamos começar com alguns pontos básicos.
(1) A origem do impulso artístico humano não pode ser explicado humanamente. Comparando teorias sobre a origem da arte, Herman Bavinck, teólogo holandês do século XIX, escreveu: “hoje, existem muitas ideias divergentes, assim como existiam antigamente: alguém explica a arte a partir do teatro, outro a partir do desejo sexual, um terceiro a partir do ritmo, um quarto a partir de sentimentos e ações que também acontecem com animais, e por aí vai. Porém, mais e mais, a convicção que ganha terreno a respeito da arte, assim como da religião, é que devemos aceitá-la como um impulso humano original, e como um desejo que não podemos explicar a partir de outras inclinações ou atividades” (Essays, p. 252-253). Exatamente. Existem muitos fatores que influenciam os artistas, mas nada pode explicar a origem do impulso artístico. Nascemos com ele.
(2) O impulso artístico é espiritual. Novamente, Bavinck escreve: “com o senso de beleza, lidamos com um fenômeno que é parte da natureza humana: uma predisposição e suscetibilidade da alma para encontrar prazer e deleitar-se em coisas que preenchem certas condições” (Essays, p.251). Exatamente. O impulso artístico é uma realidade espiritual. E, por “espiritual”, Bavinck não quer dizer que a arte pode salvar pecadores de seus pecados. A arte não tem influência salvífica a parte de um entendimento de Cristo e do Evangelho. É somente à luz do Evangelho que a arte tem algum poder salvífico como, por exemplo, no testemunho dramático de Peter Hitchens.
(3) A expressão artística do homem é uma reflexão da expressão artística de Deus neste mundo. Abraham Kuyper celebremente escreveu: “O mundo dos sons, o mundo das formas, o mundo das cores e o mundo das ideias poéticas não pode ter outra fonte senão Deus; e é nosso privilégio, como portadores de sua imagem, ter uma percepção deste mundo belo, para reproduzir artisticamente, para gozá-lo humanamente” (Calvinismo, p. 128). O mundo é povoado por artistas porque Deus é O Artista.
Permita-me acrescentar uma importante qualificação antes que tratemos da questão. Neste curto post, não posso definir o que constitui “verdadeira” arte, e o que não. Obviamente, por “arte”, eu não quero falar de arte que glorifica o mal (por exemplo, pornografia). Sem entrar na estrutura inteira da beleza, o que daria outro post, estou me referindo à “beleza de bom gosto”, o tipo de beleza manifesta no riff de uma habilidosa banda de jazz, ou nas pinceladas de um pintor francês do século XVII, ou na prosa reveladora de um escritor russo do século XIX. Em certo grau, penso que todas elas qualificam-se como arte. Por questão de espaço, estou assumindo que estamos falando de “bela arte”.
Assim, chegamos ao centro da questão: Deus deleita-se com a arte, mesmo se for realizada, escrita, ou pintada por um não-cristão? Ou, colocando a pergunta de outra forma: o fato de um pecador ser não-redimido e estar debaixo da ira de Deus torna a sua arte repulsiva para Deus?
Foi durante a leitura de He Shines in All That’s Fair: Culture and Common Grace, de Richard Mouw, que cheguei à primeira vez nessa discussão. Mouw diz que Deus pode deleitar-se – e deleita-se – com a arte não-cristã. Ele escreve:
Penso que Deus deleita-se no humor de Benjamim Frankilin, nas tacadas de Tiger Woods, e nos parágrafos bem construídos de Salman Rushdie, mesmo que essas realizações sejam, na verdade, alcançadas por não-cristãos. Estou convencido de que o deleite de Deus nesses fenômenos não surge porque levam os eleitos à glória e os não-eleitos à separação eterna da presença divina. Acredito que Deus se agrada dessas coisas pelo próprio valor delas.
Aqui está o centro do argumento:
Os exemplos citados do deleite de Deus não envolvem necessariamente a aprovação moral das vidas “internas” dos não-eleitos. Quando um poeta incrédulo faz uso de uma bela metáfora, ou quando um jogador desbocado faz uma jogada sensacional, podemos pensar em Deus agradando-se desses eventos sem necessariamente aprovar qualquer coisa a respeito dos agentes envolvidos – assim como elogiamos a retórica de um político cuja visão política desprezamos.
Mas, como isso pode ser verdade? Que provas encontramos na Escritura e na teologia?
Eu pedi a um amigo meu – um calvinista comprometido terminando sua dissertação sobre um preeminente teólogo puritano – que explicasse um pouco mais esse conceito. Ele concorda com Mouw porque sua visão é baseada no entendimento de que todos os homens são criados à imagem de Deus. Isso significa que, em algum grau, todos os homens refletem a imagem de Deus. Em um e-mail, ele me explicou mais ou menos assim:
A ideia central aqui, creio, envolve a imago dei. Deus é o amante mais perfeito de sua imagem. A imagem reside dentro da humanidade na alma humana substancial. Assim, ela brilha na cultura de maneiras infinitamente diferentes. É impossível que Deus veja tais reflexões de sua glória e não se absorva em deleites cognitivos. É ele quem vê sua própria imagem da maneira mais elevada. É ele quem se deleita nela de maneira mais profunda.
Assim, em certo sentido, a arte é o reflexo da imagem de Deus no homem. E onde a imagem de Deus resplandece na sociedade, podemos presumir logicamente que isso traz deleite Àquele que valoriza Sua própria imagem. É como um reflexo de Si mesmo.
Portanto, Mouw pode argumentar extensamente que o fundamento deste deleite não se encontra na grandeza inerente do atleta, pintor, poeta ou romancista. De fato, temos um impulso de glorificar o artista humano mais que o Artista supremo. É bem mais possível que sejamos tentados a louvar a grandiosidade do artista menor. Mouw, pelo contrário, ensina-nos uma importante lição. O fundamento do deleite de Deus na arte não-cristã acontece porque ela é um reflexo de Si mesmo.
Para entender isso, precisamos compreender a dignidade do homem ao lado de sua miserabilidade. De alguma forma – misteriosamente, me parece – o homem pode refletir a imagem de Deus, ainda que essa imagem esteja agora “terrivelmente deformada” (Calvino) devido ao pecado. A morte espiritual não pode apagar completamente a imago dei. De fato, é difícil não perceber a ironia no fato de que cada um de nós possui uma língua maliciosa e depravada, que usamos para amaldiçoar nossos semelhantes, portadores da imagem de Deus (Tg 3.9). O homem é maligno e esplêndido. A maldade nunca é mais evidente que quando expelimos ódio em direção a um portador da imagem. É o esplendor dos dons do homem que tornam seu pecado tão escandaloso. Assim, de alguma forma, homens não-redimidos podem ser terrivelmente deformados e, ainda assim, serem um reflexo do Criador. Isso é um mistério, mas eu o enxergo na Escritura.
Em seu livro The Road from Eden: Studies in Christianity and Culture, John Barber faz alguns ajustes na posição de Kuyper/Mouw e muitos deles são úteis (p. 445-460). Por exemplo, Barber discorda de Mouw sobre Deus manter “propósitos divinos múltiplos”, um propósito para a Igreja antes da queda, e outro propósito estabelecido pela Criação após a Queda.
Ainda assim, a despeito da discordância, quando se trata de Deus deleitar-se na arte não-cristã, Barber concorda com Mouw:
…uma vez que a obra cultural dos não-regenerados é vitalmente importante para o progresso do mundo, e para o plano redentivo de Deus, e uma vez que esta obra origina-se nos dons que Deus concedeu, o produto da cultura não-regenerada é agradável a Deus. Entretanto, essas observações não diminuem a “antítese” de que Kuyper falou – o fato de que existe, e sempre existirá, uma diferença fundamental entre o agente cultural cristão e o não-cristão, pelo poder da Cruz. (453)
Assim, Deus realmente deleita-se com certas obras não-cristãs, argumenta Barber. Ainda assim, se você estiver lendo cuidadosamente, pode ouvir nessas palavras uma advertência. Isso acontece porque a habilidade artística dos artistas não-cristãos está limitada pelo pecado. A respeito de Pablo Picasso, por exemplo, Barber escreve: “Enquanto da perspectiva humana, seu conjunto da obra pode ser considerado ‘grandioso’, o pecado o reduziu a mero vestígio da imagem de Deus, o que significa que sua obra nunca alcançou todo seu potencial” (452). Esse potencial total requer um artista vivendo sob o senhorio de Cristo e desenvolvendo obras que procuram glorificar a Deus.
Porém, a despeito dessa falta de potencial total, o dom artístico de Picasso encontra sua origem em Deus. Artistas não-cristãos nos mostram, nas palavras de Calvino, “quão longe os raios da divina luz têm brilhado” e nos revelam “os excelentes dons do Espírito que estão espalhados por toda a raça humana” (Comentário em Gn 4.20).
As implicações de tudo isso são explicadas nas palavras de Anthony Hoekema em Criados à Imagem de Deus:
Nós, como cristãos crentes, portanto, podemos aprender muito de grandes obras da literatura escritas por incrédulos, mesmo que não compartilhemos o compromisso último deles. Podemos apreciar o que foi produzido por não-cristãos em diferentes áreas de esforço artístico, como arquitetura, escultura, pintura, e música, uma vez que seus dons vêm de Deus. Podemos, assim, desfrutar dos produtos culturais de não-cristãos de uma maneira que glorifiquemos a Deus através deles – mesmo que tal louvor a Deus não fosse parte da intenção consciente desses artistas.
O que torna possível aos cristãos deleitarem-se nesses dons artísticos de não-cristãos é um entendimento da origem desses dons. Eles vêm de Deus. Eles refletem o caráter de Deus. E, quem melhor para reconhecer a origem de dons artísticos em não-crentes que o próprio Deus?
Artistas cristãos devem buscar o serviço à igreja pelo uso de seus dons artísticos. Mas, isso não significa que a arte desconectada da vida da igreja não reflete a Deus. Pode refletir. E é por isso que podemos deleitar-nos nas belas expressões artísticas de artistas não-cristãos, pois, como tentei mostrar a partir de teólogos confiáveis, é um fato que o próprio Deus assim o faz. Como Deus, podemos separar o dom refletido da depravação do espelho, podemos enxergar além da língua e do coração ímpio e, ainda assim, reconhecer o caráter de Deus no reflexo da beleza.
Conclusão
Me parece que, a não ser que estejamos abertos à ideia de que Deus deleita-se na manifestação de belas artes pelos não-cristão, encontraremos dificuldade em glorificar a Deus através da arte que vemos. Isso é especialmente verdade em artífices que não são cristãos, que portam as marcas de seu Criador, enquanto permanecem sob a culpa de seu pecado, e estão em desesperada necessidade de um Salvador.
Aqui está um breve resumo do que aprendi em meses de leitura sobre o assunto:
- O dom artístico no homem é intrínseco.
- A criatividade artística de Deus manifesta-se em sua criação.
- O impulso artístico humano é, pelo menos em parte, um reflexo da imagem de Deus.
- Deus deleita-se em Si mesmo e, portanto, deleita-se no reflexo de seu próprio caráter, sendo a beleza artística uma reflexão dEle em nossa cultura.
- Artistas não-cristãos, enquanto permanecem em um estado de inimizade contra Deus, nunca alcançarão o mais alto de seu potencial artístico.
Essa perspectiva oferece ao cristão um grande fundamento para a apreciação da arte não-cristã das seguintes formas:
- Abre nossos olhos para a graça comum de Deus na arte ao nosso redor.
- Lembra que, em cada artista presenteado com dons, vemos um reflexo do Artista, a fonte de toda bondade, verdade e beleza.
- Ajuda a apreciar os dons de artistas não-cristãos e a beleza da arte não-cristã.
- Protege-nos de glorificar os espelhos brilhantes ao invés do Sol.
- Lembra que o potencial artístico dos não-cristãos, por maior que seja, é tragicamente limitado.
- Lembra que, enquanto há beleza para ser apreciada na arte não-cristã, a arte não é um “território neutro” que pode ser acompanhado sem uma preocupação a respeito de Deus e da verdade.
- Finalmente, lembra que o propósito maior de Deus para a arte é uma bela obra, que nasce de um artista que vive e labora sob o temor de Deus e sob o senhorio de Jesus Cristo, e que expressa este talento artístico com o objetivo de trazer glória ao Artista.
Traduzido por Josaías Jr | iPródigo | Original aqui
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Isaque
09/07/2010, 01h08“Artistas não-cristãos, enquanto permanecem em um estado de inimizade contra Deus, nunca alcançarão o mais alto de seu potencial artístico.”
Admito que minha leitura desse artigo foi bem dinâmica e não me detive a todos os detalhes… mas essa conclusão é absurda… além de nao encontrar fundamento exegético e teológico, como, então, explicamos que a geração seguinte de CAIM (sim, o assassino de seu irmão e banido da preseça de Yahweh) foi a pioneira história da música (gn 4.21) e na tecnologia (gn 4.22)??
Ponto negativo para iprodigo por publicar esse artigo….
iPródigo
09/07/2010, 01h38Oi, Isaque. Acredito que a resposta é simples. Uma vez que esses homens não usam a arte para glorificar a Deus, eles jamais alcançarão o propósito principal da arte, seu propósito como artista e estarão sempre aquem do que poderiam estar, mesmo que sejam melhores (em termos de habilidade) que um pintor cristão não tão talentoso, mas que procura glorificar a Deus com seus dons. Assim, entendo que o artista incrédulo está limitado em sua potencialidade, assim como um marido incrédulo não alcançará seu máximo na liderança da família, por exemplo.
Um outro ponto a se pensar, usando um exemplo: Os Beatles produziram coisas excelentes, e alguns diriam que eles alcançaram o mais alto de seu potencial. Entretanto, já imaginou se escrevessem um hino de louvor? Ou se as músicas impregnadas por pressupostos pecaminosos não tivessem esses pressupostos? Acredito que seriam melhores que foram.
De qualquer forma, o que você afirma sobre os representantes da geração de Caim não significa que eles alcançaram seu potencial. Provocar avanços é diferente de chegar ao auge.
Abraços,
Josa
0gg
09/07/2010, 09h23Sendo que no caso, o auge é sempre glorificar a Deus.
Isaque
09/07/2010, 21h49Olá Josa… acho que vc está confundindo potencial artístico com propósito para a arte… Eu concordo com você que arte que não é feita com o propósito de glorificar a Deus não encontra um propósito ontológico… de fato, é fútil, vão…
Porém, esse argumento de que um incrédulo nao alcança o máximo da sua potencialidade artística é contrário ao que o proprio autor defendeu. Querendo ou não somos “feitura dEle” (gr. poiema – eph 2.10). A raça humana é artística por ser criada a imagem e semelhança de um Deus artístico…. Mas, na minha visão, não existe nenhum argumento teológico ou base exegética pra dizer que Michelangelo é menos artista porque não era crente… que Dante foi menos escritor pq nao era crente…. isso é insustentável à luz das Escrituras (vc pode me dar uma base exegética? eu nao conheço)… e outra, esse argumento menospreza o conceito da Graça Comum.
Vc vai dizer, como reformado que é por causa da depravação total… Mas um artista crente também é depravado totalmente!
A unica diferença pra entre um artista crente e incrédulo é o fato de que o artista crente tem propósitos mais sublimes… Mas sua potencialidade está tão limitada pelo pecado quanto a de um incrédulo… e é plenamente possível encontrar artistas incredúlos com muito mais potencialidade artística que um cristão e a razão disso é a graça comum…
Se esse argumento fosse verdade, os cristãos seriam os melhores musicos, artistas, escritores, compositores, etc… mas não são… vc vai dizer que Louvor Rural é melhor q U2? que Augusto Cury é melhor que Dostoievski? que a irmazinha da igreja que pinta o fundo do batistério da igreja é melhor que Van Gogh? Me perdoe… mas esse argumento é insustentável…. Além de está enraizado na velha dicotomia santo x mundano / gospel x secular
Quanto a Gn. 4… acho que vc menospreza o texto… faz uma pesquisa básica sobre a tecnologia necessaria pra o manuseio de ligas de bronze e ferro e ai depois vc dá uma olhada denovo no texto….
abraço, fica com Deus!
iPródigo
10/07/2010, 00h35Isaque, vou começar pelo fim dessa vez: quanto a tecnologia desenvolvida pela geração de Caim, nunca disse que eram avanços técnicos pequenos, apenas disse que não há indicação de que esse foi o máximo potencial. Mas tudo bem, estou entrando no campo da especulação e prefiro abrir mão do meu argumento.
De qualquer maneira, acho que você não entendeu ou me expressei mal quando eu disse que artistas cristãos eram melhores que artistas não-cristãos. Eu quis dizer que artistas cristãos, mesmo aqueles com menor capacidade artística, têm mais chance de alcançar seu máximo potencial artístico que aqueles que não são incrédulos, mesmo que a produção artística deles seja superior. Não é uma comparação de quem faz a melhor arte. Mas quem utiliza o máximo do que suas habilidades permitem. Assim, concordo com você que nunca U2 seria melhor que uma Cassiane ou Picasso melhor que eu desenhando. Quando citei os Beatles, não os comparei com bandas gospel, mas sugeri que imaginássemos o que aconteceria se os mesmos dons fossem dedicados a Deus – talvez descobriríamos que eles poderiam alcançar algo melhor do que já alcançaram. Mas talvez não alcançaram todo seu potencial – mesmo assim, têm capacidades maiores que boa parte do mundo evangélico.
Entendo que o autor quis dizer isso, não o que você está pensando. Mas admito que talvez eu tenha entendido ele errado e você entendeu ele certo. Tanto que concordo com tudo que você colocou acima, só acho que ele quis falar exatamente do propósito, e não de quem tem mais habilidade.
Sobre a base exegética, não posso te oferecer muito, mas penso que o testemunho da Escritura nos ensina que nenhuma área da existência humana alcança sua potencialidade devido ao pecado, e sem submeter-se a Cristo. Isso vale tanto para crentes para não-crentes. Mas, os crentes, por sua regeneração e santificação, chegarão mais próximos do alvo proposto. Negar isso seria dizer que existem algumas esferas da existência que não foram deformadas pelo pecado.
De qualquer maneira, acredito que, ainda que esteja certo quanto à posição do autor, o resto do texto compensa a publicação dele, pois não é o tópico principal da pergunta. Mas, lamento que não tenha agradado :/
abraços!
Em Cristo,
Josa
Marcelo Sánchez
10/07/2010, 23h07Meu irmão, então que fazemos com textos como Rom. 14:23 que diz que “tudo o que não provém de fé é pecado.”?
A Bíblia define a imagem de Deus como verdadeiro conhecimento, justiça e santidade (Col. 3:10; Ef. 4:24), mas nunca diz que a capacidade criativa ou artistica o seja.
Acredito que os reformados temos que ter muito cuidado com a doutrina da graça comum, eu rejeito ela.
Sara Daiane
10/07/2010, 23h08Oi Josa,
só verifique a ortografia em ” Assim, em certo centido,”.
parabens pelo post,
Sara Daiane
iPródigo
11/07/2010, 13h52Oi, Sara, obrigado por notar e corrigir esse erro tosquíssimo da minha parte :-)
Marcelo, conheço o pensamento dos reformados que rejeitam a graça comum e acredito que existam muitos pontos relevantes. Mas a pergunta se refere ao produto dos artistas não-regenerados, não a suas vidas, seus coraçoes ou mesmo o ato de produzir em si. Mas concordo que devemos ter cuidado com a doutrina da graça comum para não abraçarmos qualquer coisa insensatamente ou acharmos que existem esferas da existência humana que são autônomas.
Realmente a Bíblia não encotraremos um verso que diz que a capacidade criativa façam parte da imagem de Deus. Porém, por se tratar de uma habilidade única aos seres humanos e a Deus, entendemos que houve uma comunicação desse atributo.
Abraços,
Josa
Alison
12/07/2010, 00h04Excelente artigo!!!
Gostaria de saber com o pessoal do Ipródigo se não teremos mais Prodcast. Já esou com saudades… rsrsrs
iPródigo
12/07/2010, 00h08Oi Alison!
Boas notícias: volta hoje (segunda) daqui a pouco!
Abraços
Equipe iPródigo
Luiz Carlos Junior
12/07/2010, 11h50“O impulso artístico humano é, pelo menos em parte, um reflexo da imagem de Deus”.
“Para entender isso, precisamos compreender a dignidade do homem ao lado de sua miserabilidade. De alguma forma – misteriosamente, me parece – o homem pode refletir a imagem de Deus, ainda que essa imagem esteja agora “terrivelmente deformada” (Calvino) devido ao pecado. A morte espiritual não pode apagar completamente a imago dei.”
Olá,
achei o post maravilhoso e quero parabenizá-los pelo mesmo. Porém fiz dois recortes do texto e gostaria de expressar a minha opinião quanto a como os homens são salvos tendo como base o post e obvimante ler a opnião de vocês também.
Se a morte espiritual não pode apagar completamente a imago dei e por isso podemos chegar a conclusão de que certas artes podem de alguma forma refletir a beleza de Deus e o dom de Deus explícitos no homem, pode-se chegar a conclusão que no homem, devido a imago dei, existe algo misterioso que mesmo incoscientemente o atrai à Deus. Isso quer dizer que apesar da depravação total da humanidade, a mensagem reveladora e pura do evangelho de que o homem é pecador, desperta no homem a consciência de que realmente existe um link dentro dentro deste, destruído pelo pecado e por isso há a separação de Deus, ou seja, o Espírito Santo através de sua palavra conduz o homem ao entendimento de que o link está desativado por causa do pecado e por sua vez o homem devido a imago dei e a capacidade de compreensão e inteligência que é comum a todos os homens permite ou não a atuação do Espírito Santo afim de reativar esse link, então o Espírito Santo vivifica o espírito até então morto do homem e o regenera o adota e o justifica e o conduz a um desenvolvimento de sua salvação sub-julgando a alma e o corpo do homem ao espírito do mesmo que é o link de atuação direta do Espírito Santo e portanto a parte mais nobre. Deus age juntamente com a vontade do homem pois na alma do homem existem impressões suficientes de Deus que levam este homem a crer que é um pecador e que necessita de Cristo, portanto, quando a mensagem de Cristo é pregada, o homem pode decidir continuar em seu estado de depravação ou não.
Atte,
Luiz Carlos Junior.
Carlos Jr
12/07/2010, 15h03Definir termos como cultura e arte dentro de um mundo que filosoficamente está embasando na cosmovisão pluralista e pós-moderna torna-se algo desafiador. Cultura pode ser as características peculiares de uma determinada época. Hoje a definição de cultura é bem menos abrangente. Pode-se definir como cultura as práticas e ritos de determinado grupo, como por exemplo, a cultura afro-brasileira. Essa definição em torno de conceitos bem delimitados pelo estilo de vida, roupas, costumes e ritos religiosos. O mandato cultural mostra ao calvinista a obrigação de influenciar todas as culturas. Na música, pinturas, esculturas, arquitetura, teatro, cinema, literatura e todas as demais expressões culturais que não sejam uma afronta ao Deus criador. Sendo a Cultura uma manifestação de valores e crenças é preciso permeá-la com o evangelho. A saída não é criar uma arte cristã, isso seria reducionismo e desprezaríamos a ação da graça comum sobre os homens. Mas o calvinista deve fazer uso adequado das artes em todas as esferas para manifestar a glória de Deus.Não podemos ter uma arte exclusivamente cristã nem totalmente mundana, mas a proposta do Calvinismo é termos uma concepção de que Deus age por meio da sua criação. “Não são os cristãos os únicos capazes de pintar com beleza e, por isso mesmo, nem tão pouco são os únicos capazes de amar ou de ter potencial criativo. Por mais que a imagem possa estar distorcida agora, o fato é que as foram criadas á imagem de Deus.”Schaeffer Francis Como Viveremos?. Editora Cultura Cristã. 2003. p 172
Carlos Jr
12/07/2010, 15h16Para Calvino as artes têm um papel importante. Calvino reconheceu uma inclinação natural no ser humano para as atividades culturais e artísticas. Essas inclinações provêm de Deus o Criador. Como mostra Moisés em Êxodo 35.31-35, Deus é quem concede o dom artístico aos homens. Esses dons artísticos estão presentes em toda a humanidade como criada a imagem de Deus. Essa imagem do Deus criador em nós é manifesta em cada ato criador de sua obra maior o homem. Para Calvino “As artes de pintar e esculpir são dons de Deus, penso eu que o uso legitimo e puro de ambas as artes, afim de que Deus seja conhecido e manifesto em sua glória para proveito nosso.”CALVINO, Juan, Institución de la Religión Cristiana, FELIRe, 1967, vol. I p. 58 (tradução minha)Desenvolver uma fórmula para a igreja influenciar a cultura não é possível. “Em nosso século aqueles que tentaram desenvolver uma estética cristã quase invariavelmente têm levado a produzir uma arte para contemplação somente.”Wolterstorff Nicholas Art in Action –, Grand Rapids, Michigan. Wm. B. Eerdmans Publishing Co. 1980, p 67 (tradução minha). Não queremos construir um tipo de subcultura que exclui o mundo material e conduz somente a contemplação espiritual, entendemos que o ser humano tem sentimentos e sentidos que devem ser contemplados. Em sua obra Forsyth diz: “Digo que a influência da religião na arte tem sido um meio de prover inspirações muito mais altas e melhores”.Forsyth Peter Taylor , Christ on Parnassus – Lectures on art, Ethic and Theology –, 1996, Hodder and Stoughton Ltd. p 02.(tradução minha). Essa influência do cristianismo nas artes deve ser em âmbito de toda a sociedade. Hoje a arte é em muito abstrata, não possuem significado lógico, os artistas dizem que não importa o que obra de arte signifique, pode ser uma pintura ou escultura, um amontoado de cores, em várias manchas pode significar o que você quiser. Você tem que sentir, o seu sentimento é que diz o que significa.Van Groningen falando do mandato cultural dos cristãos diz:
“Como comunidade de crentes, a igreja deve estar no centro do meio cultural. Cada aspecto cultural está envolvido na nossa vida. Os aspectos político, educacional, recreacional tecnológico, comercial, artístico, de trabalho, e cada aspecto deste mundo pertencem a Deus e nos foi dada a ordem de dominar sobre todas estas coisas. Cada individuo, primariamente aqueles que foram revestidos do Espírito de Deus, que tiveram seu coração e mente renovados, deve entender que se ele for fiel socialmente e espiritualmente também o será culturalmente.” Groningen, Harriet e Gerard von A Família da Aliança.. Editora cultura Cristã. 1ª ed. 1997. p 66.
Luis Henrique
15/07/2010, 09h20Existem alguns reformados mais radicais apelando pra Romanos 14:23 pra negar a graça comum. Inclusive no monergismo tem um texto de Herman Hanko onde ele usa esse mesmo texto nesse sentido.
O fato é que esse texto, no geral, trata de crentes que querem saber o que é certo ou errado numa contenda sobre comer ou não carne sacrificada aos ídolos.
O problema é que além de usar o texto de forma isolada, descontextualizada, ainda por cima os versículos anteriores (principalmente o v. 14) são ignorados.
Esse texto pode muito bem ser aplicado para crentes que não possuem fé para ‘consumir’ produtos culturais produzidos por não-crentes, se é que isso é possível. (Já que a propaganda, as artes gráficas, os sites, blogs, mídias sociais, a TV, o rádio, jornais, livros e revistas e boa parte de tudo no mundo quem envolve informação e cultura são produzidos por não-crentes e nos cercam o tempo todo, nos alimentam em algum sentido).
Mas utilizar Rm 14:23 para dizer que algo que foi criado, produzido, ou dito por um não-crente é em si mesmo pecado, sinceramente, pra mim é tão estúpido quanto dizer que futebol, cinema e sorvete de casquinha são coisas pecaminosas. E esse nunca foi o propósito do texto, que ainda mostra nos versos anteriores que é impossível fazer alguma afirmação desse tipo, mesmo em algo que parecia tão delicado quanto o sacrifício aos demônios. Nem Paulo fez.
Ver a manifestação da graça e da glória de Deus principalmente através dos talentos e produções de não regenerados, ainda não sendo esse o objetivo deles, também ilustra a grandeza e bondade de Deus para com o estado miserável do homem.
Creio que examinar tudo é o mais difícil, mas em todo caso é a ordem bíblica. Envolve tempo, disposição, interesse pela verdade. Dicotomizar além de ser o meio mais fácil, sempre foi o caminho preferido dos religiosos, quase sempre mais um motivo para se orgulhar, se distanciar e se alienar do mundo.
Discordo com o autor do texto sobre a potência da obra de arte do cristão e do não cristão. Creio que um não-regenerado pode atingir sua máxima potencialidade criativa e artística mesmo não visando a glória de Deus, já que isso não tem nada a ver com limitações intelectuais ou cognitivas advindas do pecado, mas simplesmente por ser uma mais uma maneira de Deus exibir sua glória. Não envolve merecimento, vontade ou capacidade humana, mas se trata da Sua graça soberana agindo em quem quer e como quer, exaltando quem quer, como quer, quando quer. Isso é visível em muitos reis ímpios e tiranos do Velho Testamento. O próprio Nabucodonosor teve de reconhecer essa verdade (Dn 4:35,36).
Minha sincera opinião.
Em Cristo,
Luis.
Carlos Jr
03/08/2010, 09h47“Não são os cristãos os únicos capazes de pintar com beleza e, por isso mesmo, nem tão pouco são os únicos capazes de amar ou de ter potencial criativo.” Francis Schaeffer, Como Viveremos. Cultura Cristã. p. 60
sillas
05/11/2010, 15h24Lendo o post acima não consegui afastar da minha cabeça o verso de Prov.21:4 onde diz que até a lavoura do impio são pecado; e Isaias 64:6 que diz que todas as obras de justiça realizadas por pessoas em pecado sao vistas por Deus como meros trapos de imundícia.
E aí?
Sillas
iPródigo
05/11/2010, 23h29O texto já responde essa questão:
“podemos pensar em Deus agradando-se desses eventos sem necessariamente aprovar qualquer coisa a respeito dos agentes envolvidos – assim como elogiamos a retórica de um político cuja visão política desprezamos.”
A pessoa e seu pecado desagrada a Deus, mas ele não odeia a imagem dele que ainda está impressa na pessoa (deformada, mas ainda está lá), nem as manifestações delas.
abraços