Analogias Problemáticas e Adoração Reverente
por Carl TruemanPergunte a qualquer professor de escola dominical para crianças qual é o assunto mais difícil de ensinar e é quase certo que ele dirá: “A doutrina da Trindade: Deus é Um, mas existe em três Pessoas.” Pergunte como eles ensinam e muito provavelmente você os ouvirá usando uma analogia. “Deus é como a água, o gelo e o vapor” é uma das mais populares.
O problema com essa analogia – de fato, com qualquer analogia – para a Trindade é que ela mais atrapalha do que ajuda. O que ela descreve não é algo similar à Trindade bíblica, mas sim algo semelhante à antiga heresia chamada modalismo. Não tomarei tempo aqui detalhando os problemas dessa heresia, que vê Deus como sendo um e então o Pai transformando-se no Filho e depois o Filho no Espírito Santo. O que quero mostrar é que analogias para a Trindade não ajudam porque a Trindade é absolutamente única. Todas as analogias do mundo criado levam mais a confusão do que esclarecem.
Outra área onde os cristãos geralmente usam analogias é na encarnação de Cristo. Aqui as analogias muitas vezes vão para o outro lado: o universo criado não é usado para explicar a encarnação, mas a encarnação é usada para explicar algum aspecto da criação. Dessa forma, alguns têm defendido analogias da encarnação como um meio para entender como o aspecto divino e humano relacionam-se entre si na doutrina da Escritura, dado que a Bíblia tem tanto autores humanos quanto o próprio Deus. E isso não é privilégio de uma corrente teológica específica do Cristianismo. Liberais têm utilizado essa ideia, mas ortodoxos, como o teólogo holandês Herman Bavinck, também o fizeram. Outros usaram a analogia para explicar a relação entre Cristo e a cultura. Outros ainda usaram-na como um meio para explicar como o Deus Eterno trabalha no curso da história através da providência.
Há argumentos teológicos a favor e contra esses vários usos de analogias da encarnação, mas não irei descrevê-los aqui. Quero, ao invés disso, defender uma simples questão relacionada a essas analogias do ponto de vista da adoração na igreja: a Trindade e a encarnação são únicas e é por esse motivo que a Igreja teve que desenvolver maneiras particulares e precisas para articulá-las. Devemos também lembrar a dinâmica que gerou os debates que levaram a essas formulações: a adoração cristã. A Igreja Primitiva precisava saber o que ela queria dizer quando declarava: “Jesus é Senhor” e porque ela batizava em o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Se, portanto, as analogias servem para reduzir o caráter único de Deus e a encarnação de Cristo, então eventualmente elas moldarão a cultura da igreja em maneiras que impactam nossa adoração. Quaisquer que sejam os problemas com os populares usos de analogias teológicas, o problema prático principal é que esse enfraquecimento da unicidade de Deus também enfraquecerá a adoração na igreja.
Vital para a adoração é o reconhecimento da enorme diferença que existe entre Deus e suas criaturas humanas. Parte da diferença está no fato de que Ele é o Criador e Sustentador de tudo o que existe, enquanto nós somos criaturas e sustentadas em nosso ser por Deus. Parte da diferença é moral: Ele é Santo, nós somos pecadores. Parte tem a ver com a salvação: Ele é o gracioso Salvador e nós somos aqueles que recebem graça. Em todas essas três categorias, mistério e incompreensibilidade provêm o pano de fundo para ação dEle na história.
Vital para a adoração é o reconhecimento da enorme diferença que existe entre Deus e suas criaturas humanas.
As doutrinas da Trindade e da encarnação preservam esse mistério porque elas ensinam verdades bíblicas de um modo que não pode ser reduzido a categorias de nossas mentes finitas. O resultado disso para o cristão certamente não é confusão, mas adoração. A incapacidade de nossos intelectos em penetrar nesses mistérios é vital para nossa vida cristã porque é exatamente essa incapacidade que nos leva a cairmos de joelhos em suspiros de adoração, louvor e admiração.
Minha convicção é que as analogias enfraquecem isso. Ao reduzir a distância entre a criação e Deus, elas de alguma forma fazem Ele mais fácil de manipular, mais palatável à nossa maneira de pensar e, consequentemente, levam nossa urgente fome espiritual para longe do nosso louvor e adoração. E isso não é um argumento a favor do fideísmo, para dizer que quanto mais mística nossa fé, maior nossa adoração. Mas sim para dizer que existe um lugar apropriado para o mistério e a unicidade que devem ser mantidos se nossa adoração pretende ser verdadeiramente cristã. A tarefa do mestre não é explicar a Trindade ou a encarnação, ou reduzi-las a categorias próprias de criaturas; é, ao invés disso, apontar para o esplendor dessas doutrinas como um meio de provocar temor e admiração na congregação.
Quando falamos sobre Deus, devemos nos lembrar que estamos andando em solo sagrado. Podemos ir somente até o ponto em que temos que parar e cair de rosto ao chão em atitude de adoração. Como Gregório Nazianzeno, um dos pais da Igreja Primitiva, disse sobre o Deus Triúno: “Sempre que penso em Deus como Um, minha mente é levada aos Três; e sempre que penso nos Três, minha mente é levada a Um.” Ele não podia explicar a Trindade; ele podia simplesmente louvar e adorar o Três em Um e Um em Três. O mistério, a fronteira da incompreensibilidade, era para ele um lembrete de que ele não era Deus. Preservar essa fronteira é crucial. E não permitamos nenhuma tentativa de comunicar a fé que acabe por se tornar um meio de domesticar a fé.
Não permitamos nenhuma tentativa de comunicar a fé que acabe por se tornar um meio de domesticar a fé.
Traduzido por Alex Daher | iPródigo.com | Original aqui
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Carlos Henrique
13/12/2011, 14h43Olá!
Talvez não tenha entendido bem ou quem sabe seja apenas o reflexo de minha estatura na fé, mas creio que Jesus foi quem nos ensinou a usar analogias, exemplos e histórias para apontar (não definir) o que Deus é e fez por nós. (Semente, solo, rocha, espinho, aves, caminho, grão de mostarda, pastor, ovelhas…)
Afinal se não pudermos usá-las, nem a língua escrita caberia para descrever a Palavra de Deus. Ou o que é a escrita senão a analogia entre o pensamento ou sentimento e a comunicação?
Perceba que para ilustrar exatamente o que quero dizer usei uma analogia agora mesmo. Acabei de comparar a utilização das analogias com a palavra escrita ou falada para revelar o que pensamos e sentimos. Ou seja, as analogias estão para o entendimento assim como as palavras estão para o pensamento.
Ou vai dizer que “EU TE AMO” define o que você sente por alguém? Não, é apenas uma analogia do que sentimos com o que pode fazer a pessoa entender o que é que sentimos, mas não define tudo o que você sente por ela.
Ops, acabei de usar mais um exemplo ou analogia, e creio que você entendeu o que eu queria dizer!
Ruminando,
Carlos Henrique
Obs.: Ai ai ai, “ruminando” acaba de ser mais uma analogia do que queria dizer.
iPródigo
13/12/2011, 16h00Oi Carlos, o autor não está se colocando contra analogias em si.
Ele está criticando o uso de analogias para falar de aspectos mais difíceis da fé, que não tem semelhante na Criação. Os dois exemplos mais claros são a Trindade e a Encarnação. Outro exemplo: como alguém poderia falar da geração eterna do Filho pelo Pai, dentro da Trindade? Falaríamos de árvores que duram séculos ao lado de suas “filhas”? De um parto eterno? :P. Quase impossível (e até herético e ridículo) – alguma tentativa de relacionar à criação diminuiria o essas duas pessoas eternas.
Uma analogia da criação acaba diminuindo o significado delas. Normalmente isso está relacionado ao próprio Deus, não a maneiras como ele age conosco, ou devemos agir. Aí é comum o uso da analogia. (E mesmo assim, repare quantas imagens a Bíblia usa para nossa salvação – uma só seria diminuir também). Se fôssemos contra todo uso de analogia, seríamos contra parábolas por exemplo e nem o nome desse site poderia ser esse, já que faz referencia a uma. heheheh
Um ponto importante: as analogias que você citou são todas da Bíblia. Caso a Palavra usasse uma analogia de 3 estados da água pra falar da Trindade, tudo bem, seríamos permitidos a falar. Mas, creio que Deus sabe que dificilmente ela faria justiça à divindade.
um abraço
Josa
Carlos Henrique
13/12/2011, 21h24Olá, Josa!
Obrigado pelo carinho de esclarecer o texto do autor.
Creio que apenas discordo então, pois o autor esqueceu que Jesus, que é Deus, usou uma analogia que na opinião do autor poderia ser herética e ridícula: João 6.48 “Eu sou o pão da vida”.
Já quanto a sua analogia do “parto eterno” achei muito pertinente e ilustrativa, talvez seria como Deus em Ex 3.14 dizendo que uma boa resposta para Seu nome seria: “EU SOU O QUE SOU” ou “EU SOU, me enviou”.
Abraço,
Carlos Henrique
Emilio
13/12/2011, 22h40Obrigado por traduzir este excelente texto. De fato, analogias para explicar a Trindade acabam enfatizando ou ensinando coisas erradas. Fiquemos com a formulação bíblica dos credos e adoremos ao Deus Trino.
iPródigo
13/12/2011, 23h40Novamente, Carlos, não acho que ele está dizendo isso.
A analogia do pão da vida é bíblica e não se refere a nenhum dos mistérios citados, como Encarnação e Trindade, mas ao alimento espiritual que Cristo é.
e a do parto eu achei péssima, apesar de ser minha =P No caso do nome de Deus, não é analogia – simplesmente o fato é que ELE É :)
Carlos
14/12/2011, 01h56Olá iProdigo,acho que entendi o Carlos Henrique e também o texto apresentado.O que não pode haver é um extremo de aceitar toda e qualquer analogia e não aceitar nenhuma analogia.Mas pelo texto em apreço está se falando de duas Doutrinas por demais dificeis.
Emilio
14/12/2011, 03h05Acho que na verdade a questão é simples. Analogias da Trindade e da Pessoa de Cristo sempre serão inadequadas por conta da natureza do que se está tentando analisar. Analogias de coisas como a obra de Cristo na justificação, adoção, a iluminação do Espírito, a vida em comunhão da igreja – estas coisas todas podem ser ilustradas por analogias úteis; principalmente se forem as que a própria Bíblia emprega. Mas esta nunca faz analogias acerca da Trindade ou da união das duas naturezas do redentor…
As analogias de aspectos específicos da vida cristã podem ser feitas desde que se entenda que estas também são limitadas e nunca exaustivas; sempre há um ponto em que nossas analogias falham.