Declarações de amor para Deus
por Bob KauflinAlguém criou a expressão “músicas ‘Deus é minha namorada’” para descrever as letras contemporâneas que expressam o amor a Deus com palavras que, por natureza, são românticas. Elas incluem frases como “abraça-me”, “deixe-me sentir seu toque”, etc. Embora essa não seja a primeira vez na história em que cânticos congregacionais foram rotulados como sensuais (John Wesley tinha alguns problemas com as letras de Charles Wesley, às vezes), essa é uma questão que ainda precisa de esclarecimento.
Por que alguém escreve músicas que podem ser cantadas tanto para Deus quanto para um amante humano? As razões variam. Talvez o compositor seja simplesmente um péssimo letrista que não conhece nada melhor. Pode ser uma tentativa de alargar os limites do lirismo poético. Também poderia ser uma tentativa de escrever canções “intercambiáveis” que são aplicáveis a contextos cristãos ou seculares. O problema é que nosso relacionamento com Deus é um pouco diferente (você poderia dizer infinitamente?) de nossos relacionamentos com os outros.
Outro grupo baseia seu uso do imaginário romântico em Cântico dos Cânticos – “Deixe-me conhecer os beijos de tua boca, deixe-me sentir teu abraço”¹. Entretanto, não há qualquer indicação fora de Cantares de que Deus deseja que cantássemos individualmente palavras como essas a nosso Deus e Salvador. (Para uma interpretação mais literal de Cântico dos Cânticos como uma celebração do romance matrimonial, sugiro que você leia Sexo, Romance e a Glória de Deus, de C.J. Mahaney).
Fiquei feliz de pegar a última edição da revista Worship Leader e descobrir que Matt Redman tratou esse mesmo tópico em um artigo chamado “Beije-me?”. Ele procurar responder a pergunta: “figuras românticas são apropriadas para as expressões congregacionais de adoração?”.
Como esperado, os pensamentos de Matt são humildes, claros, uteis e, mais importante, bíblicos. Ele compartilha a experiência de escutar o um CD de músicas de louvor próximo a um não-cristão.
Outro dia estava ouvindo um disco de louvor (que não identificarei!) bem alto – dentro do alcance do homem que limpa minhas janelas. Achei que talvez fizesse algum bem para ele ouvir algumas músicas de adoração. O que não percebi é que uma das músicas continha uma sequência de letras que pareciam românticas. Ao procurar o mais rápido possível o botão de pausa, percebi algo. Eu não estava com vergonha de Jesus, mas não estava nem um por cento convencido da maneira como, alguma vezes, nos aproximamos dEle. William Barclay tem uma opinião bem forte sobre isso: “o Novo Testamento jamais corre o menor risco de sentimentalizar a ideia de Deus”².
O potencial para o evangelismo o encorajou até que surgiu uma música com uma sequência de letras românticas. Ao pausar a música, Matt percebeu: “eu não estava com vergonha de Jesus, mas não estava nem um por cento convencido da maneira como nos aproximamos dEle”. Em seguida, ele acrescenta: “Algumas vezes, dentro das paredes da igreja, caímos no hábito de dizer ou fazer coisas que nunca faríamos se estivéssemos realmente em contato com o mundo. E, na verdade, isso é apenas um ponto secundário. O principal é se estamos ou não escrevendo e escolhendo músicas que são um eco verdadeiro do padrão da Escritura”.
Como a maioria das coisas, discernimento é mais sábio que simplesmente banir o uso de certas palavras como “belo” ou “abraçar”. Entretanto, cantar ou escrever palavras a Deus porque elas “expressam meus sentimentos” mostra-se um padrão ilusório. Deus importa-se com as palavras que usamos quando nos aproximamos dEle, e nossas palavras devem ser “um eco verdadeiro do padrão da Escritura”. Relacionamo-nos com Deus da maneira que Ele se revelou a nós ou de uma maneira que nossa cultura acha confortável? Nossas músicas descrevem Deus como Ele é ou procuram fazê-lo mais parecido conosco?
Relacionamo-nos com Deus da maneira que Ele se revelou a nós ou de uma maneira que nossa cultura acha confortável?
Encontramos o equilíbrio entre transcendência e imanência em Isaías 54.5: “Porque o teu Criador é o teu marido; o SENHOR dos Exércitos é o seu nome; e o Santo de Israel é o teu Redentor; que é chamado o Deus de toda a terra”. Esse verso nos mostra que, em nosso desejo de celebrar como Deus nos trouxe para perto por meio da cruz, nunca podemos nos esquecer de que Ele continua exaltado acima de toda criação. Ele não é nossa namorada; Ele é nosso Deus. Nossas canções nunca deveriam ser vagas sobre essa diferença. Como Matt nos lembra, “precisamos constantemente refletir nas maneiras em que nos dirigimos a nosso maravilhoso Deus”. Porque Ele realmente é maravilhoso.
¹ Música do compositor David Ruis. No original, “Let me know the kisses of your mouth, let me feel your embrace.”
² Esse trecho do Matt Redman não estava na versão original do texto de Bob Kauflin (por isso há até uma certa repetição nesse post). Incluí aqui para entendermos melhor o contexto da situação narrada. Você pode ler o artigo de Matt (em inglês) aqui.
Traduzido por Josaías Jr. | iPródigo | Original aqui
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Wagner
14/02/2011, 15h36Muito bom. Interessante q eu pensava que na nossa particularidade, estavamos livres para “fazer ou dizer “tudo”", mas o autor mostrou de forma bem convincente de q somos livres para nos aproxímarmos do nosso Deus de acordo com as Escrituras. Excelente o texto…
Natã Oliveira
14/02/2011, 18h02Ótimo texto.
Já fazia um bom tempo que certas letras neste padrão estavam me deixando desconfortável.
Diogo
14/02/2011, 21h46Também não me sinto muito confortável com essas músicas. E isso nem é de agora, já ouço essas coisas há pelo menos uns quinze anos. Umas das piores que já ouvi é uma canção chamada “Não vivo sem você” (o título já diz tudo…), que dizia assim:
“Tantas vezes escrevi numa estrela azul o seu nome / Esperando que o sol da manhã me trouxesse você / Por favor não deixe o mar da ilusão te levar para longe do cais / Oh, Pai”
É de doer! Não presta nem como canção de amor. Como é dito no texto, “talvez o compositor seja simplesmente um péssimo letrista que não conhece nada melhor”.
Cid
14/02/2011, 21h48Na minha opinião esta letra de música abaixo nos mostra como devemos nos relacionar com Ele, destaco este trecho “Como Tu és / Não como imagino”
“Quero te ver
Como Tu és
Não como imagino
Mas como Tu és
Quero ouvir
Tua palavra
Não como imagino
Mas o que ela diz
Meu amor, meu amor”
Palavrantiga – Imagino
Liliana
17/02/2011, 22h59Muito bom o texto.
Fazem séculos que já não escuto as atuais músicas de “louvor” por causa do tom romântico e completamente estranho que algumas letras têm.
Acho que as pessoas estão tão sem idéias para compor letras que deveriam ser e louvor à Deus e acabam colocando qualquer coisa, sem sentido.
Maíra
17/03/2011, 19h29Excelente texto!
Já tinha lido algo parecido no site do Renato Vargens.
Cristiano Vichinheski Garcia
21/02/2012, 01h58Hoje vivemos um momento cultural pós-moderno antropocêntrico… isso quer dizer que colocamos o homem no centro de tudo… os hinos hoje são… eu quero…. eu louvo… eu isso… eu aquilo… vejam este hino das antigas que diferença:
Grande… é Senhor é mui digno de louvor… Alegria de toda a terra…
Ou da harpa:
Sim eu porfiarei, por estas terras de além… e lá terminarei, astantas lutas de aquém… lá está o meu Bom Senhor, ao qual eu desejo ver… Ele é tudo pra mim e sem Ele eu não posso viver…
Cada vez mais me convenço que nossa cultura nos afasta de Deus pois é inimiga de Deus.
kenedy
18/03/2012, 06h35Desculpe-me, mas terei que discordar um pouco desse texto. A bíblia por diversas vezes apresenta Deus como um esposo ou um noivo. Para Israel, ele utiliza da fatidica figuração de Oseias e Gomer. Por diversas passagens Deus se intitula esposo de Israel. Para a igreja, joão diz sermos a noiva do cordeiro, o próprio cristo mostrou isso na parábola das 10 virgens.
Verdadeiramente, não creio ser errado falar para Deus que eu quero senti-lo, vê-lo, tocá-lo, me envolver em sua gloria e amá-lo, ou chamá-lo de belo. A musica é uma expressão de sentimentos, dizer a Deus o que estamos sentindo em relação a Ele creio ser uma declaração de amor, ao Deus que tanto nos amou.
Mas, concordo as músicas devem explicitar bem a quem o eu-lirico está se declarando. Musicas que soam em duplo sentido, para mim é rejeitável..
iPródigo
18/03/2012, 20h56Kenedy,
existem diferenças entre o casamento entre o Senhor e seu povo, como representado na Bíblia, e as canções românticas evangélica. Por exemplo, normalmente essas músicas focam-se no indivíduo como o “cônjuge” de Deus e não no corpo, na comunidade. Elas pegam conceitos de um amor humano, entre duas pessoas, e tenta imitar de uma maneira que não se aplica ao relacionamento entre Deus e seu povo, onde um dos noivos é corporativo. Enfim, elas enfatizam um individualismo que não existe na Bíblia – nessa figura.
Além disso, embora na Bíblia existam elogios à beleza, amor, cuidado, etc, de Deus, é um linguajar de adoração e que em nenhum momento se esquece da diferença entre Criador e criatura. A beleza de Deus não é mera questão de qualidades ou atração física, como há num relacionamento entre duas criaturas. Esse é apenas um exemplo. De qualquer forma, o que o texto critica é a apropriação do linguajar e do “clima” das músicas românticas pop para tratar com Deus. É claro que podemos elogiá-lo, declarar o amor, etc – mas há uma linguagem apropriada, que é a proposta pela Escritura.
Espero que isso tenha ajudado a entender melhor nossa visão sobre o assunto.
abraço!