O duplo alcance da autojustificação
por Tullian TchividjianAlgo que a Bíblia deixa claro é que a justiça própria é o principal inimigo do Evangelho, e que nenhum grupo melhor deu vida ao pecado da autojustificação que os fariseus. De fato, Jesus reservou suas críticas mais severas a eles, chamando-os de hipócritas e túmulos caiados.
Em seu livro The Prodigal God, Tim Keller corretamente nos mostra que os fariseus eram a audiência principal que Jesus tinha em mente ao contar a parábola do filho pródigo, em Lucas 15. Os fariseus foram comparados ao irmão mais velho, aquele que na parábola “cumpriu todas as regras”, e fez tudo que ele deveria fazer. O irmão mais velho não é um roqueiro indie, tatuado e cabeludo; ele era o certinho metido. Ele não é um liberal; ele é um conservador. Ele não é irreligioso; ele é religioso. Se você já leu o romance de S.E. Hinton, The Outsiders, você verá imediatamente que o irmão mais novo da parábola é como um greaser, enquanto o irmão mais velho é como um dos soacs¹
É interessante que na Bíblia sempre a pessoa imoral recebe o Evangelho antes da pessoa moral. É a prostituta que entende a graça; é o fariseu que não entende. É o injusto irmão mais novo que entende antes do irmão mais velho, justo a seus próprios olhos. O livro de Tim mostra isso muito bem.
Há, entretanto, outro (talvez mais sutil) lado da justiça própria que pessoas “estilo irmão mais novo” precisam tomar cuidado. Existe uma forma de autojustificação igualmente perigosa, que infesta pessoas irreligiosas, liberais e não-convencionais. Nós, antilegalistas, podemos nos tornar tão culpados de legalismo ao caminhar no sentido oposto. O que quero dizer com isso?
É simples: você pode se autojustificar contra aqueles que são justos aos seus próprios olhos. Hoje, muitos evangélicos mais jovens estão reagindo ao gosto conservador, tradicionalista e bitolado da “irreligião do irmão mais velho” de seus pais. Gritam: “certo, eu sei que eu não tenho tudo e vocês acham que tem; eu sei que eu não sou bom e vocês pensam que são. Isso me faz melhor que vocês”. Percebe a ironia?
Em outras palavras, eles estão orgulhosos por não se autojustificarem!
Atenção: a autojustificação não respeita pessoas. Ela atinge o religioso e o irreligioso; o “bitolado” e o “subversivo”. A Bíblia inteira nos mostra quão míopes todos somos quando este se torna nosso próprio pecado. Por exemplo, era fácil para Jonas ver a idolatria dos marinheiros. Era fácil para ele ver os caminhos perversos dos ninivitas. O que ele não podia ver era sua própria idolatria, sua própria perversão. Assim, a pergunta é: em que direção a sua justiça própria se inclina?
Felizmente, enquanto nossa autojustificação vai longe, a graça de Deus vai mais longe ainda. E a boa notícia é: ela nos alcança em ambas as direções!
Pr. Tullian Tchividjian é pastor da Coral Ridge Presbyterian Church, em Fort Lauderdale, Flórida. Ele é neto de Billy Graham.
Notas
¹ Este livro não é muito famoso no Brasil, talvez. Mas sua adaptação para o cinema foi feita por Francis Ford Coppola, com o título de Vidas sem rumo. A trama fala de diferentes grupos de jovens. Os greasers são os “revoltadinhos” da história, enquanto os soacs (“soashe” no original) são os “riquinhos”. (N.T.)
Traduzido por Josaías Jr | iPródigo
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