Os cristãos são totalmente depravados?
por Tullian TchividjianAcredite ou não, esta é uma questão importante. Não é uma simples questão teológica. É uma questão teológica que tem profundas implicações práticas. Nossa resposta vai, inevitavelmente, mostrar o nosso entendimento acerca do evangelho e refletir nossa compreensão de pecado e graça.
Primeiramente, as primeiras coisas: o que a depravação total não é.
Depravação total NÃO significa “depravação absoluta?”. Depravação absoluta significa que alguém é tão mau quanto ele/ela poderia ser. Felizmente, a graça preventiva de Deus preserva o pior de nós de ser absolutamente depravado. As piores pessoas que já viveram poderiam ser piores ainda. Então, não leia “depravação total” como “depravação absoluta”
Bem, se a depravação total não é uma depravação absoluta, então o que é? Como é entendida e articulada por teólogos por séculos, a ideia de “depravação total” significa mais de uma coisa.
Por um lado, a depravação total afirma que todos nós nascemos “mortos em nossos pecados e transgressões” (Efésios 2.1-3; Colossenses 3.13) sem capacidade espiritual de nos inclinarmos a Deus. Nós não viemos a este mundo espiritualmente neutros; nós viemos ao mundo espiritualmente mortos. Portanto, nós precisamos de muito mais do que nos esticar em nosso leito espiritual de hospital e tomar um remédio que Deus nos oferece. Nós precisamos ser levantados da morte para a vida. Neste sentido, depravação total significa que nós somos “totalmente incapazes” de chegarmos a Deus. Nós não vamos porque não podemos e não podemos porque estamos mortos.
Como está escrito: Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer. (Romanos 3.10-12).
A mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à Lei de Deus, nem pode fazê-lo. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus. (Romanos 8.7-8)
Salvação só acontece quando Deus vem até nós.
Quando a Ressurreição e a Vida diz “Lázaro, venha para fora”, o resto da história não depende de Lázaro. Ele pode arrastar seus pés pelo caminho – reconhecidamente, um inferno de coisa para fazer – mas ele se levanta, e não importa o que. Ele simplesmente fez… Jesus veio para ressuscitar os mortos. A única qualificação para receber o presente do Evangelho é estar morto. Você não precisa ser esperto. Você não precisa ser bom. Você não precisa ser sábio. Você não precisa ser maravilhoso. Você só precisa estar morto. E só. (Robert Capon).
Então, nesse sentido, Cristãos não são, obviamente, totalmente depravados. Nós que estávamos mortos fomos vivificados.
Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos. Deus nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus… (Efésios 2.4-6)
Mas uma vez Deus nos regenerou pelo Seu Espírito, nos levou até ele, nos uniu a Cristo, nos levantou da morte, e nos concedeu o posto de filhos(as) adotivos(as), há algum sentido em que podemos falar que Cristãos são totalmente depravados?
Sim.
Teólogos falam da depravação total, não apenas nos termos da “total incapacidade” de vir a Deus pelas suas próprias forças porque nós estamos espiritualmente mortos, mas também nos termos do efeito do pecado: o pecado nos corrompe na “totalidade” do nosso ser. Nossas mentes são afetadas pelo pecado. Nossos corações são afetados pelo pecado. Nossas vontades são afetadas pelo pecado. Nossos corpos são afetados pelo pecado. Este é o cerne a luta interna de Paulo que ele articula em Romanos 7:
Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio (v. 15)
A luta dolorosa que Paulo expressa surge a partir de sua condição de simul justus et peccator (simultaneamente justificado e pecador). Ele foi levantado da morte e agora está vivo com Cristo, mas o pecado remanescente continua a atormentá-lo em todos os níveis e sentidos.
O testemunho de Paulo demonstra que mesmo depois de Deus nos salvar, não há nenhuma parte de nós que está livre de pecado – continuamos pecadores e imperfeitos em todas as nossas capacidades, na “totalidade” do nosso ser. Mesmo depois de Deus nos salvar, nossos pensamentos, palavras, motivações, ações e afeições precisam de constante limpeza do Sangue de Cristo e do perdão que vem até nós de graça. Isso é o que J.C. Ryle queria dizer quando escreveu, “Mesmo nas melhores coisas que fazemos há algo a ser perdoado”.
Embora isso seja uma verdade gloriosa para os Cristãos que não há nenhuma parte de seu ser que não seja alcançada por Cristo com seu Espírito, é igualmente verdade que não há nenhuma parte da vida do cristão que esteja livre do pecado. Por causa da totalidade dos efeitos do pecado, portanto, nós nunca superamos nossa necessidade da obra consumada por Cristo em nosso favor – nós nunca finalizamos nossa necessidade desesperada pela justiça de Cristo e Seu forte e perfeito argumento encharcado de sangue “perante o trono do alto céu”.
A razão de isso ser tão importante é porque nós sempre teremos suspeitas da graça (“sim, pela graça, mas…”) até que percebamos nossa desesperadora necessidade dela. Nossa extrema necessidade pela graça de Deus não fica menor depois que Deus nos salva – pelo contrario, ela realmente se torna maior. O crescimento cristão, diz o Apóstolo Pedro, é sempre “crescimento na graça”, não longe dela. Muitos cristãos acreditam que sermos santificados significa que nós nos tornamos muito fortes e muito competentes. E embora nós nunca disséssemos desta forma, nós cristãos às vezes damos a impressão que a santificação é crescimento além da nossa necessidade por Jesus e seu trabalho terminado em nós: nós precisávamos muito da de Jesus para a justificação; nós precisamos menos dEle para a santificação.
A verdade é, contudo, que o crescimento e o progresso cristão envolvem a realização de como fracos e incompetentes continuamos a ser e o quão forte e competente Jesus continua a ser por nós. Maturidade espiritual não é medida pelo nosso crescimento independente e aptidão. Em vez disso, é medida pelo crescimento da nossa dependência na capacidade de Cristo por nós. Porque nós somos pecadores diários, nós precisamos da dose diária da graça de Deus que vem na nossa direção como resultado da obra consumada de Cristo. Crescimento cristão envolve crer e abraçar o fato de que, mesmo como um cristão, você é pior do que você acha que é, mas que a graça de Deus dada a você por meio de Cristo é muito maior do que você pode algum dia imaginar.
Você é pior do que acha que é, mas a graça de Deus dada a você por meio de Cristo é maior do que você pode imaginar
Por causa da depravação total, você e eu estávamos desesperados pela graça de Deus antes de sermos salvos. Por causa da depravação total, você e eu permanecemos desesperados pela graça de Deus mesmo depois de sermos salvos.
Felizmente, apesar das consequências profundas dos nossos pecados, a graça de Deus tem um alcance muito mais profundo.
Traduzido por Marianna Brandão | iPródigo.com | Original aqui
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Vinícius S. Pimentel
08/02/2012, 07h09Galera, texto excelente!
Só uma coisa: a expressão que vocês traduziram como “pecado restante” (“remaining sin”) é muito presente na obra de John Owen e tem sido geralmente traduzida como “pecado remanescente” ou “reminiscência de pecado”. Acho que manter a expressão teológica consagrada seria melhor.
No mais, que Deus continue a abençoá-los!
Gustavo Henrique
08/02/2012, 14h05Cara, que texto lindo!
Isso tem que nos motivar a buscar cada vez mais a Cristo e ser mais parecido com Ele.
Muito obrigado pelo site de vocês, tem sido uma benção enorme na minha vida, e tenho certeza que na vida de muitas outras pessoas!
Que Deus continue os abençoando, capacitando e dando forças para que esse ministério frutifique e cresça sempre para a glória de Deus.
Abraços!
Aline Avelar
11/02/2012, 18h26Muito esclarecedor e sincero.
Gostei muito do texto, ajudou bastante.
Deus continue os abençoando!